Erros do passado na nossa atualidade

Nossa sociedade não pode ceder ao autoritarismo e à intolerância, repetindo assim erros do passado.

por José Maria Velasquez

A exposição Queermuseum, promovida pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, que promovia obras de reflexão sobre a diversidade de gênero e orientação sexual, foi cancelada por causa da repercussão negativa espalhada por grupos conservadores, os quais acusaram o evento de promover zoofilia, pedofilia e denegrir símbolos religiosos.

Além das críticas e da alegada perda de clientes do banco pela má repercussão, houve ameaças de morte a 3 funcionários.

Mas o próprio MBL (Movimento Brasil Livre), que criticou a exposição, não foi vê-la. Para um dos seus fundadores, Renan Santos, “não é necessário ir à exposição para saber que a exposição desrespeita imagens religiosas”.

santander-crc-777x437Dos fatos mencionados, há 2 observações: a primeira, do filósofo Imannuel Kant, com a teoria do idealismo transcendental, que explica que o conhecimento da realidade se daria pela experiência e pela razão. Assim, não ter visto a exposição e aceitar que ela trata de pedofilia, zoofilia, ou intolerância, não condiz com a realidade.

E intimidação, ameaça, vandalismo a pessoas ou instituições que tenham convicções divergentes, como sofreram os funcionários do Santander ou pessoas de vertentes político-ideológicas diferentes, são típicas de regimes autoritários, como nazi-fascismo e o stalinismo, e não em sociedades pautadas pela democracia, direitos humanos e pluralidade de pensamento.

Em virtude dos fatos apresentados, a sociedade vive um perigoso dilema: voltar ao lado arcaico e autoritário da intolerância, ou seguir em frente ao lado do respeito pelo pensamento crítico e tolerante. O escritor George Orwell, em sua obra “1984”, já descrevia um Estado autoritário, com censura e morte ao pensamento divergente. E a história da humanidade também apresentou esse cenário, como no nazi-fascismo e no stalinismo. Assim, é necessário resistir diante do ataque, ao promover mais exposições com temas diversificados, denunciar o preconceito e promover a conscientização, para evitar outra tragédia de violência, censura e intolerância, e assim, não repetir os erros do passado na nossa atualidade.

Psicanálise cinematográfica: a narrativa e o espectador

O filme “Precisamos falar sobre Kevin” utiliza a arte do cinema para iluminar áreas obscuras da psicologia humana.

por Lis S. Crivellari

we-need-to-talk-about-kevinDirigido por Lynne Ramsay, cineasta especializada em suspenses, Precisamos Falar Sobre Kevin (2011) é um filme anglo-americano baseado no livro homônimo escrito por Lionel Shriver. A produção garantiu à atriz Tilda Swinton o Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Atriz, em 2011.

Trata-se de um suspense psicológico que explora a relação tendenciosa entre uma mãe e seu filho. Eva (Tilda Swinton), mãe de Kevin (Ezra Miller), luta contra a personalidade malévola do filho mais velho, em uma tentativa de aproximar-se e criar uma relação saudável com o primogênito, que demonstra-se hostil quanto ao relacionamento com a mãe.

Em uma narrativa inconstante, a produção do filme trabalha com a dualidade, mesclando cenas da vida que levava com sua família e como esta fora exterminada impetuosamente, até a atual realidade turbulenta de Eva.

Precisamos Falar Sobre Kevin explora o instinto maternal de Eva combinado com a auto-culpabilidade que cria após descobrir as consequências que o comportamento violento do filho gera.

Cada elemento presente na construção do filme visa transparecer ao telespectador diversas metáforas e paradoxos, inconscientemente relacionando e sintetizando elementos-chave do filme.

Um aspecto crucial no entendimento da narrativa é a semelhança estabelecida entre de Eva e Kevin. Semelhanças físicas e mesmo comportamentais (como, quando criança, Kevin copia a fala de sua mãe) proporcionam a ideia de que Eva é responsável pela educação e formação de Kevin, assim como de sua nascença. Este detalhe é assimilado à culpa da mãe pelas ações do filho, criando a atmosfera perturbada que é a atual vida de Eva.

O clima de suspense que proporciona a produção de Precisamos Falar Sobre Kevin é devorador. O ser humano é biologicamente impulsionado a criar justificativas e conclusões a situações desmembradas, e o mistério por trás do filme faz crescer em nós uma dúvida dilacerante que, quando esclarecida, provoca um choque de conforto e assombro junto ao alívio, clássicos dos gêneros de suspense e terror.

“As pessoas que buscam sensações desfrutam da curiosidade mórbida dos filmes de horror. Comparado a pessoas com baixa procura de sensação, elas têm um maior nível de excitação. Na psicologia, a excitação é um sentimento geral de alerta ou de consciência.” Natasha Romanzoti, 2010

Os efeitos visuais cinematográficos também valem ser ressaltados. A cor vermelha, aparente e emergente ao longo da narrativa, demonstra, além do sangue, o crescente caos na vida de Eva causado pelo ódio de Kevin em relação à sua mãe. A cena da Tomatina no início do filme passa-se antes de Kevin ser concebido, como uma antecipação inconsciente, tanto para o personagem quanto para o telespectador, do que estaria lhe aguardando no futuro. É também perceptível a presença do vermelho na atmosfera de Eva após os eventos envolvendo Kevin e sua completa imersão involuntária no drama do ocorrido.

Além de intensificar e acentuar a narrativa do filme, a cor proporciona também ao telespectador certas emoções e ajuda a moldar a estrutura cinematográfica da obra na mente do indivíduo.

“Com a chegada da cor no cinema, o envolvimento emocional que a iluminação e a textura exerciam na época do cinema preto e branco, tornou-se ainda maior. Não significa que uma cor terá o mesmo significado em todos os filmes, assim como ela não possui na vida real. Da maneira como os cineastas trabalham, é possível atrelar diferentes significados às cores com base na vivência dos espectadores e nos objetivos do filme.” Luíza de Castro, 2015

A psicologia por trás dos filmes torna as produções cinematográficas praticamente interativas. São premeditadas e moldadas, de modo que o indivíduo tenha o total entendimento da narração, e até mesmo sinta conexão emocional e mental com o filme.  A arte do cinema não se baseia somente no visual e no enredo do filme, e sim nos elementos ocultos, como a exploração do subconsciente do espectador, proporcionando a experiência fantástica que distruibuem as produções cinematográficas.

A sexualidade juvenil

O conto “O primeiro beijo”, de Clarice Lispector, faz o leitor mergulhar com vivacidade na experiência da descoberta sexual.

por Lis S. Crivellari

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“O Primeiro Beijo”, obra de Clarice Lispector, explora o amor e a sexualidade juvenil. Um casal de adolescentes conversa, e a menina pergunta ao menino se seu primeiro beijo fora com outra. Daí se inicia a descrição de seu primeiro beijo e o desenvolvimento da narrativa.

Clarice é uma grande figura da literatura brasileira, e suas histórias já são consideradas clássicos. Nascida na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920, chega ao Brasil em março de 1922. Passou a infância na cidade do Recife e, em 1937, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito. Inicia sua carreira literária em 1943, com o romance “Perto do Coração Selvagem”, que fora bem recebido pelo público, recebendo o Prêmio Graça Aranha.

O menino, na narrativa, sentia sede imensa enquanto estava em um ônibus de excursão, e se satisfez com a água da fonte de uma estátua feminina na parada que fizeram. Essa sede pode ser comparada à libido, desenvolvida na adolescência, e insaciável. A água que jorra da boca da estátua devolve a vida ao garoto, que se sente aliviado ao satisfazer sua necessidade natural, e novamente pode-se atrelar isso ao desejo sexual. A vida lhe foi dada pela “mulher”, portanto, despertou e amadureceu.

O desejo sexual é um dos mais recentes a se desenvolver. A libido é considerada por muitos de fonte maternal, e o sexo parte do ciclo natural, seja em prol do conforto, prazer ou da própria reprodução da espécie. Sigmund Freud, psicólogo influente do início do século XX, propõe que a sexualidade é desenvolvida em três fases pré-genitais:

“(…) fase oral, na qual a atividade sexual está ligada diretamente à nutrição. Ao nascer, a criança reconhece a boca como o órgão mais sensorial, é através dela que o bebê começará a reconhecer o mundo. A fase anal é a etapa de maturação do controle muscular da criança, aqui ela começa a desenvolver sua organização motora. A zona de erotização é o ânus. Sua ligação afetiva se dá com o produto, com o valor simbólico das fezes, promovendo mecanismos psicológicos ligados à projeção e ao controle. A fase fálica é quando se dá a descoberta e preocupação na diferença entre meninos e meninas. Aqui a zona de erotização são os genitais. Esta fase promoverá as organizações psicológicas de masculino e feminino e organizam-se, também, os modelos relacionais entre homens e mulheres.” (fonte)

Clarice, no conto, mostra a vitalidade do menino, a inocência infantil e a mudança que se mostra na experiência. Retrata a transição de garoto para homem, o amadurecimento que se tem a partir do contato sexual, e mesmo assim sua inocência, quando seu despertar é com a figura de uma estátua, algo material que remetia à figura feminina. Essa dualidade é explorada no conto:

“Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.” (trecho de “O Primeiro Beijo”, Clarice Lispector).

Escritora da década de 1940, Lispector dá vida ao texto, analisando e criticando a questão da sexualidade com uma narrativa interessante, com a visão atualizada para nosso século. Relaciona a ideia principal do texto e sua própria narrativa de um modo metafórico, explorando a fragilidade e importância do assunto.

A sexualidade tem sua banalização e repressão social, causando na formação sexual o sentimento de culpabilidade e transformando o natural em algo impuro. Em “O Primeiro Beijo”, Clarice desconstrói a vulgaridade atribuída ao sexo, e analisa o primeiro beijo, a “tensão” e o orgulho que sente o menino com a própria vida, poetizando e humanizando suas palavras para proporcionar ao leitor essa mesma visão.