Psicanálise cinematográfica: a narrativa e o espectador

O filme “Precisamos falar sobre Kevin” utiliza a arte do cinema para iluminar áreas obscuras da psicologia humana.

por Lis S. Crivellari

we-need-to-talk-about-kevinDirigido por Lynne Ramsay, cineasta especializada em suspenses, Precisamos Falar Sobre Kevin (2011) é um filme anglo-americano baseado no livro homônimo escrito por Lionel Shriver. A produção garantiu à atriz Tilda Swinton o Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Atriz, em 2011.

Trata-se de um suspense psicológico que explora a relação tendenciosa entre uma mãe e seu filho. Eva (Tilda Swinton), mãe de Kevin (Ezra Miller), luta contra a personalidade malévola do filho mais velho, em uma tentativa de aproximar-se e criar uma relação saudável com o primogênito, que demonstra-se hostil quanto ao relacionamento com a mãe.

Em uma narrativa inconstante, a produção do filme trabalha com a dualidade, mesclando cenas da vida que levava com sua família e como esta fora exterminada impetuosamente, até a atual realidade turbulenta de Eva.

Precisamos Falar Sobre Kevin explora o instinto maternal de Eva combinado com a auto-culpabilidade que cria após descobrir as consequências que o comportamento violento do filho gera.

Cada elemento presente na construção do filme visa transparecer ao telespectador diversas metáforas e paradoxos, inconscientemente relacionando e sintetizando elementos-chave do filme.

Um aspecto crucial no entendimento da narrativa é a semelhança estabelecida entre de Eva e Kevin. Semelhanças físicas e mesmo comportamentais (como, quando criança, Kevin copia a fala de sua mãe) proporcionam a ideia de que Eva é responsável pela educação e formação de Kevin, assim como de sua nascença. Este detalhe é assimilado à culpa da mãe pelas ações do filho, criando a atmosfera perturbada que é a atual vida de Eva.

O clima de suspense que proporciona a produção de Precisamos Falar Sobre Kevin é devorador. O ser humano é biologicamente impulsionado a criar justificativas e conclusões a situações desmembradas, e o mistério por trás do filme faz crescer em nós uma dúvida dilacerante que, quando esclarecida, provoca um choque de conforto e assombro junto ao alívio, clássicos dos gêneros de suspense e terror.

“As pessoas que buscam sensações desfrutam da curiosidade mórbida dos filmes de horror. Comparado a pessoas com baixa procura de sensação, elas têm um maior nível de excitação. Na psicologia, a excitação é um sentimento geral de alerta ou de consciência.” Natasha Romanzoti, 2010

Os efeitos visuais cinematográficos também valem ser ressaltados. A cor vermelha, aparente e emergente ao longo da narrativa, demonstra, além do sangue, o crescente caos na vida de Eva causado pelo ódio de Kevin em relação à sua mãe. A cena da Tomatina no início do filme passa-se antes de Kevin ser concebido, como uma antecipação inconsciente, tanto para o personagem quanto para o telespectador, do que estaria lhe aguardando no futuro. É também perceptível a presença do vermelho na atmosfera de Eva após os eventos envolvendo Kevin e sua completa imersão involuntária no drama do ocorrido.

Além de intensificar e acentuar a narrativa do filme, a cor proporciona também ao telespectador certas emoções e ajuda a moldar a estrutura cinematográfica da obra na mente do indivíduo.

“Com a chegada da cor no cinema, o envolvimento emocional que a iluminação e a textura exerciam na época do cinema preto e branco, tornou-se ainda maior. Não significa que uma cor terá o mesmo significado em todos os filmes, assim como ela não possui na vida real. Da maneira como os cineastas trabalham, é possível atrelar diferentes significados às cores com base na vivência dos espectadores e nos objetivos do filme.” Luíza de Castro, 2015

A psicologia por trás dos filmes torna as produções cinematográficas praticamente interativas. São premeditadas e moldadas, de modo que o indivíduo tenha o total entendimento da narração, e até mesmo sinta conexão emocional e mental com o filme.  A arte do cinema não se baseia somente no visual e no enredo do filme, e sim nos elementos ocultos, como a exploração do subconsciente do espectador, proporcionando a experiência fantástica que distruibuem as produções cinematográficas.

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