A sexualidade juvenil

O conto “O primeiro beijo”, de Clarice Lispector, faz o leitor mergulhar com vivacidade na experiência da descoberta sexual.

por Lis S. Crivellari

20101102110004!Clarice_Lispector

“O Primeiro Beijo”, obra de Clarice Lispector, explora o amor e a sexualidade juvenil. Um casal de adolescentes conversa, e a menina pergunta ao menino se seu primeiro beijo fora com outra. Daí se inicia a descrição de seu primeiro beijo e o desenvolvimento da narrativa.

Clarice é uma grande figura da literatura brasileira, e suas histórias já são consideradas clássicos. Nascida na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920, chega ao Brasil em março de 1922. Passou a infância na cidade do Recife e, em 1937, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito. Inicia sua carreira literária em 1943, com o romance “Perto do Coração Selvagem”, que fora bem recebido pelo público, recebendo o Prêmio Graça Aranha.

O menino, na narrativa, sentia sede imensa enquanto estava em um ônibus de excursão, e se satisfez com a água da fonte de uma estátua feminina na parada que fizeram. Essa sede pode ser comparada à libido, desenvolvida na adolescência, e insaciável. A água que jorra da boca da estátua devolve a vida ao garoto, que se sente aliviado ao satisfazer sua necessidade natural, e novamente pode-se atrelar isso ao desejo sexual. A vida lhe foi dada pela “mulher”, portanto, despertou e amadureceu.

O desejo sexual é um dos mais recentes a se desenvolver. A libido é considerada por muitos de fonte maternal, e o sexo parte do ciclo natural, seja em prol do conforto, prazer ou da própria reprodução da espécie. Sigmund Freud, psicólogo influente do início do século XX, propõe que a sexualidade é desenvolvida em três fases pré-genitais:

“(…) fase oral, na qual a atividade sexual está ligada diretamente à nutrição. Ao nascer, a criança reconhece a boca como o órgão mais sensorial, é através dela que o bebê começará a reconhecer o mundo. A fase anal é a etapa de maturação do controle muscular da criança, aqui ela começa a desenvolver sua organização motora. A zona de erotização é o ânus. Sua ligação afetiva se dá com o produto, com o valor simbólico das fezes, promovendo mecanismos psicológicos ligados à projeção e ao controle. A fase fálica é quando se dá a descoberta e preocupação na diferença entre meninos e meninas. Aqui a zona de erotização são os genitais. Esta fase promoverá as organizações psicológicas de masculino e feminino e organizam-se, também, os modelos relacionais entre homens e mulheres.” (fonte)

Clarice, no conto, mostra a vitalidade do menino, a inocência infantil e a mudança que se mostra na experiência. Retrata a transição de garoto para homem, o amadurecimento que se tem a partir do contato sexual, e mesmo assim sua inocência, quando seu despertar é com a figura de uma estátua, algo material que remetia à figura feminina. Essa dualidade é explorada no conto:

“Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.” (trecho de “O Primeiro Beijo”, Clarice Lispector).

Escritora da década de 1940, Lispector dá vida ao texto, analisando e criticando a questão da sexualidade com uma narrativa interessante, com a visão atualizada para nosso século. Relaciona a ideia principal do texto e sua própria narrativa de um modo metafórico, explorando a fragilidade e importância do assunto.

A sexualidade tem sua banalização e repressão social, causando na formação sexual o sentimento de culpabilidade e transformando o natural em algo impuro. Em “O Primeiro Beijo”, Clarice desconstrói a vulgaridade atribuída ao sexo, e analisa o primeiro beijo, a “tensão” e o orgulho que sente o menino com a própria vida, poetizando e humanizando suas palavras para proporcionar ao leitor essa mesma visão.

Anúncios

Sistema educacional e suicídio

A invisibilidade dos sofrimentos dos jovens é algo que a sociedade não deve mais tolerar.

por Christian Palmério

A série da Netflix “13 Reasons Why” apresenta como protagonista Hannah Baker, que se suicidou. Ao longo da série, as razões que motivaram essa ação são explicadas, dentre elas o bullying, assédio sexual, depressão e violência física. Fora da ficção, o suicídio continua sendo um problema nas sociedades contemporâneas, necessitando de políticas públicas para tentar reduzir esses atos.

O filósofo Jean Paul Sartre afirmou que a violência, independente de como ela se manifesta, é sempre uma derrota. Uma pesquisa realizada pela USP de Ribeirão Preto estima que 20% dos estudantes escolares já praticaram algum tipo de bullying contra os colegas. O bullying escolar, de acordo com a FIOCRUZ, é um dos grandes motivos de suicídio entre jovens.

Mesmo com campanhas e discussões sobre o assunto no âmbito escolar, o número de casos, tanto de bullying quanto de suicídio, está subindo constantemente. Entretanto, muitos problemas dificultam a solução desse impasse. O silenciamento ainda predominante da mídia, da escola e dos familiares em relação ao suicídio e à depressão cria um ambiente desfavorável para que o adolescente se sinta à vontade para falar de seus sentimentos, fazendo com que seja difícil a percepção de comportamentos suicidas / depressivos. Ademais, a pressão familiar em cima dos jovens em relação ao vestibular acaba por contribuir para que o jovem entre em depressão e não sinta firmeza sobre o seu futuro, resultando em um deslocamento dentro da família.

bullyng-620x350Portanto, medidas são necessárias para resolver essa situação. O MEC deverá providenciar palestras para escolas sobre os temas do bullying, da depressão e do suicídio, utilizando uma linguagem informal para aproximar os jovens. Ademais, devem ser criadas atividades semestrais anônimas, nas quais o jovem poderá relatar os seus sentimentos, criando uma maior facilidade em se abrir para as outras pessoas. O MINC deverá priorizar verbas para produções artísticas que tematizem o suicídio e outros problemas dos jovens, para que haja uma maior representatividade midiática sobre os problemas da juventude. Isso ajudará tanto os pais, no entendimento dos problemas dos filhos, e os próprios adolescentes, que sentindo-se melhor representados, não sofrerão mais em silêncio.