Compreensões da Realidade

Não podemos nos fechar em nossa própria compreensão da realidade, ideologicamente condicionada; é importante sempre nos abrirmos para diferentes modos de ser, existir e experimentar, compreendendo o outro, o diferente.

por Antônio Fjeld; Felipe del Coco; Júlia Rosado; Lis Santos; Lucca Bromberg; Nina Trajtengertz; Derek Brian; Francisco Brandão; Jérome Senden; Juan Sanches; Thiago Kugelmas.  

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Yves de la Taille, professor titular no Instituto de Psicologia da USP.

Peregrino e turista (Yves de la Taille, “Formação ética: do tédio ao respeito de si”, ed. Artmed, 2009) são modos de viver, ver e compreender a realidade, muitas vezes referentes ao aprofundamento e à superficialidade com que vemos e compreendemos a mesma realidade ao nosso redor, além do modo como agimos em muitas situações da vida. A metáfora está relacionada a experiências superficiais ou profundas de compreensão: o peregrino é aquele que busca um sentido para a vida, seu trajeto é mais importante que sua chegada, enquanto o turista – figura marcante dos tempos atuais – busca apenas a diversão ou a curiosidade, a superficialidade em si, não buscando nada “além” de algum lugar ou objeto.

Também podemos compreender os dois conceitos de forma mais simplificada: o peregrino sendo uma metáfora para aquele que entende o mundo e as pessoas de forma profunda, que se importa com as coisas e faz, pensa e age por determinados propósitos, enquanto o turista é aquele indivíduo “superficial”, que vive no modo “automático”, sem reflexão ou senso crítico.

Queremos esclarecer, desde já, que ser “turista” ou ser “peregrino” não é ruim, e também não é uma escolha duradoura; uma pessoa pode ter atos “de turista” e “atos de peregrino”, sendo muito difícil ser só um dos dois em todas as situações. São atos de momento, sendo que atualmente os atos “de peregrino” são atos mais raros, pois a sociedade atual está mais voltada à superficialidade.

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turista em museu de arte.

Podemos, por exemplo, observar esse tipo de distinção de ação no aprofundamento e na intenção ao apreciar a arte, como em museus, onde muitas pessoas apenas fotografam as obras de forma superficial para compartilhar as fotos na internet,  sem compreendê-las, tampouco tentar entender o que o autor delas quis expressar.

 

Outro lugar em que podemos observar o comportamento típico do “turista” é em shows de música, onde a maior parte das pessoas está mais preocupada em filmar a apresentação e compartilhá-la em redes sociais do que curtir a experiência, e acabam assistindo ao espetáculo apenas pela tela do celular. Reparamos que as redes sociais vêm se tornando lugares para turistas, as fotos só servem para ganhar mais “curtidas”, as pessoas para ganharem “seguidores” o tempo todo; como se a experiência em si não valesse por si própria.

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turista em apresentação musical.

A ideologia dominante ajuda neste processo de superficialidade, já que, sem perceber, estamos imersos em uma cultura que forma nosso pensamento e nosso modo de agir, com hegemônica para o consumo, o que acaba nos tornando suscetíveis a um consumismo desenfreado, muitas vezes sem sequer “parar” e ver o que estamos fazendo, levando-nos muitas vezes a um modo de vida “automatizado”.

 

O mundo em que vivemos afeta nossa maneira de ser e viver. Muitas vezes não percebemos, mas as escolhas que fazemos são fortemente influenciadas pelo contexto social e cultural. É claro que nenhum dos diferentes modos de enxergar a realidade está errado em si; porém, concluímos que temos de conhecer variados pontos de vista, incluindo o do peregrino e o do turista.

Exemplos

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O Sal da Terra

Podemos ver experiências peregrinas no documentário O Sal da Terra (Brasil, 2015, dir.: Wim Wenders / Juliano Ribeiro Salgado), no qual vemos o fotógrafo Sebastião Salgado convivendo com várias culturas diferentes ao redor do mundo de forma profunda e duradoura, assim obtendo várias experiências tipicamente peregrinas e conhecendo outros modos de viver e de compreender a realidade.

 

Também podemos observar diferentes modos de compreender a realidade do mundo e das pessoas no filme Era O Hotel Cambridge, que fala sobre a população sem-teto e refugiados recém-chegados ao Brasil, também sem moradia. Todos ocupam um hotel abandonado e o tornam o lar deles; porém, os moradores das redondezas e o governo não gostam de sua presença, dando um prazo para que saiam.

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Era O Hotel Cambridge

Então, os moradores se organizam para mostrar ao mundo que eles são pessoas e aquele é o seu lar. Os moradores do prédio se expressam e protestam através da arte, da voz, mas as pessoas que realmente têm moradia e dinheiro só enxergam o que elas acham que está “estragando” o lugar. Esse filme mostra nitidamente o ponto de vista de cada grupo e como estes podem ser diferentes.

 

Outra obra que podemos relacionar com a compreensão da realidade dentro de ações peregrinas e turísticas é o clássico livro escrito por Aldous Huxley em 1931, Admirável Mundo Novo. A obra se passa no século VII depois de Ford (DF), quando não existe mais a concepção da vida como conhecemos hoje, tudo é feito por meio de genética e fecundação externa; a sociedade é dividida em castas que são definidas a partir do momento em que o feto se forma, sem discussões, sem revoltas, pois não havia mais famílias.

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Admirável Mundo Novo

As diferentes castas, denominadas Alfa, Beta, Delta, Gama e Ipsilon, foram criadas para que os seus membros nunca saíssem delas, sendo punidos caso tentassem. Mas exilados da sociedade existem os Selvagens, os seres humanos que, vistos pelo nosso ponto de vista, são mais comuns: possuem família, e sua reprodução é natural; porém, do ponto de vista dos reproduzidos (as castas), que compunham a maior parte da sociedade, eles eram considerados Selvagens.

 

O governo da distopia distribui uma droga, a SOMA, que tinha o objetivo de acabar com a infelicidade, sem depressão nem tristeza. Bernard, um dos personagens principais, viaja para uma aldeia de Selvagens e conhece uma família; retorna à “civilização” com dois Selvagens: uma mulher e o filho. Com o passar do tempo, Bernard começa a usar este como uma atração, um objeto para ganhar status, respeito e poder.

A importância desta obra para o tema do turista e do peregrino é que, quando alguns Alfas se deparam com Selvagens, aqueles encaram o modo como estes compreendem a realidade como sendo absurdo, tanto que aprisionam um Selvagem como exemplo. Ao compararmos com nossa realidade, não chega a ser tão diferente: muitas vezes, ao olharmos para outra cultura e modo de compreensão da realidade, nossa sociedade a estranha e a afasta, fechando-se para ela. Sendo que, muitas vezes, não percebemos que estamos envoltos na nossa própria bolha de compreensão e nos fechamos de entender outras pessoas diferentes. Além disso, não é estranho atualmente pegarmos alguma cultura, religião ou crença e nos aproveitarmos disso, normalmente por dinheiro, ou pela curiosidade em serem diferentes da nossa “bolha”, diferentes do que é nos é imposto, diferentes do “normal”.

Erros do passado na nossa atualidade

Nossa sociedade não pode ceder ao autoritarismo e à intolerância, repetindo assim erros do passado.

por José Maria Velasquez

A exposição Queermuseum, promovida pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, que promovia obras de reflexão sobre a diversidade de gênero e orientação sexual, foi cancelada por causa da repercussão negativa espalhada por grupos conservadores, os quais acusaram o evento de promover zoofilia, pedofilia e denegrir símbolos religiosos.

Além das críticas e da alegada perda de clientes do banco pela má repercussão, houve ameaças de morte a 3 funcionários.

Mas o próprio MBL (Movimento Brasil Livre), que criticou a exposição, não foi vê-la. Para um dos seus fundadores, Renan Santos, “não é necessário ir à exposição para saber que a exposição desrespeita imagens religiosas”.

santander-crc-777x437Dos fatos mencionados, há 2 observações: a primeira, do filósofo Imannuel Kant, com a teoria do idealismo transcendental, que explica que o conhecimento da realidade se daria pela experiência e pela razão. Assim, não ter visto a exposição e aceitar que ela trata de pedofilia, zoofilia, ou intolerância, não condiz com a realidade.

E intimidação, ameaça, vandalismo a pessoas ou instituições que tenham convicções divergentes, como sofreram os funcionários do Santander ou pessoas de vertentes político-ideológicas diferentes, são típicas de regimes autoritários, como nazi-fascismo e o stalinismo, e não em sociedades pautadas pela democracia, direitos humanos e pluralidade de pensamento.

Em virtude dos fatos apresentados, a sociedade vive um perigoso dilema: voltar ao lado arcaico e autoritário da intolerância, ou seguir em frente ao lado do respeito pelo pensamento crítico e tolerante. O escritor George Orwell, em sua obra “1984”, já descrevia um Estado autoritário, com censura e morte ao pensamento divergente. E a história da humanidade também apresentou esse cenário, como no nazi-fascismo e no stalinismo. Assim, é necessário resistir diante do ataque, ao promover mais exposições com temas diversificados, denunciar o preconceito e promover a conscientização, para evitar outra tragédia de violência, censura e intolerância, e assim, não repetir os erros do passado na nossa atualidade.

A xenofobia na realidade brasileira

Pode não parecer, mas a xenofobia também existe no Brasil e está crescendo.

por Melissa Marques

A xenofobia é o preconceito contra estrangeiros que pode ter motivação histórica, cultural, religiosa, etc. E não pense que porque o Brasil é conhecido como um “país amigável” que não existe tal problema social aqui. A xenofobia é algo comum na vida de muitos que sofrem ou praticam esse ódio por aí.

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Manifestação xenofóbica na Av. Paulista, em São Paulo.

Nos dias de hoje, muitos brasileiros são hostilizados ao se mudarem para Portugal; mas, há décadas atrás, os portugueses que se mudavam para cá é que eram tratados mal. Isso é um exemplo claro de que a xenofobia acontece de todas as formas.

A questão dos refugiados é uma das que mais causam esse comportamento de ódio hoje em dia. Muitas pessoas veem esses refugiados como “ameaça”, principalmente no mercado de trabalho. Um acontecimento recente é o caso do refugiado sírio que foi agredido em Copacabana, no Rio de Janeiro. Depois disso, os cariocas se mobilizaram e criaram um evento de apoio para o homem. Alguns políticos, como o deputado federal Jair Bolsonaro, também já se mostraram contrários aos refugiados, o que acaba influenciando mais ainda uma parcela da população para esse tipo de comportamento.

Para combater a xenofobia, as pessoas precisam entender que a nacionalidade, etnia, crença de alguém não dá o direito de o outro tratá-lo mal; que isso não faz de ninguém pior do que o resto da população. Todos somos seres humanos e merecemos ser respeitados.

Sem mais segregação

Desfazer os preconceitos por trás da denominada apropriação cultural passa por conhecer e respeitar as culturas originais de onde surgem os símbolos que queiramos adotar.

por Ana Beatriz Cavalcante Urze Rhomens Marques

O termo mais discutido depois do episódio em que uma garota postou, em seu facebook, que duas outras garotas, negras, abordaram-na no ônibus pedindo para que retirasse o turbante que usava na cabeça, é a apropriação cultural. Mas o que é isso?

Apropriação cultural é um conceito antropológico que se refere à adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo diferente. O seu sentido é negativo, pois tal apropriação é feita por um grupo dominante em relação a um grupo oprimido.

Desde a época das grandes navegações, são evidentes a segregação e a marginalização de muitas culturas, uma vez que a cultura branca e europeia sempre foi mais valorizada. Com a chegada da globalização,  o rápido acesso a diferentes culturas abriu as portas para um novo jeito de ver essas diferenças, agora não mais a partir de um ponto de vista preconceituoso.

Além disso, vivemos em uma sociedade que preza a liberdade individual e o respeito. Vivemos em uma época de desconstrução de pensamentos, com o objetivo de unir toda a sociedade e igualar todos os indivíduos, acabando com o preconceito e a marginalização.

11013568_934426963285774_7827075776219593946_nA partir do momento em que se diz que uma pessoa branca não pode usar um turbante, cria-se uma barreira entre culturas, com a justificativa de que tal pessoa pertence ao grupo dominante. Uma pessoa branca usar um turbante mostra que há uma desconstrução de pensamento, pois aquele turbante já não é mais um símbolo marginalizado.

É claro que, por outro lado, a indústria da moda se aproveita dessa desmarginalização para simplesmente lucrar, sem ao menos dar atenção para a cultura original de onde aquele símbolo surgiu, defeito grave do mundo capitalista.

É necessário que a mídia e as pessoas, ao invés de enfatizarem apenas a separação e a diferença entre as culturas, comecem a observar e mostrar as origens culturais de cada símbolo que se queira adotar – inclusive roupas e adereços. Isso contribuiria para a diminuição da segregação e seria melhor do que não usar algo por medo, ou julgar quem usa.