Compreensões da Realidade

Não podemos nos fechar em nossa própria compreensão da realidade, ideologicamente condicionada; é importante sempre nos abrirmos para diferentes modos de ser, existir e experimentar, compreendendo o outro, o diferente.

por Antônio Fjeld; Felipe del Coco; Júlia Rosado; Lis Santos; Lucca Bromberg; Nina Trajtengertz; Derek Brian; Francisco Brandão; Jérome Senden; Juan Sanches; Thiago Kugelmas.  

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Yves de la Taille, professor titular no Instituto de Psicologia da USP.

Peregrino e turista (Yves de la Taille, “Formação ética: do tédio ao respeito de si”, ed. Artmed, 2009) são modos de viver, ver e compreender a realidade, muitas vezes referentes ao aprofundamento e à superficialidade com que vemos e compreendemos a mesma realidade ao nosso redor, além do modo como agimos em muitas situações da vida. A metáfora está relacionada a experiências superficiais ou profundas de compreensão: o peregrino é aquele que busca um sentido para a vida, seu trajeto é mais importante que sua chegada, enquanto o turista – figura marcante dos tempos atuais – busca apenas a diversão ou a curiosidade, a superficialidade em si, não buscando nada “além” de algum lugar ou objeto.

Também podemos compreender os dois conceitos de forma mais simplificada: o peregrino sendo uma metáfora para aquele que entende o mundo e as pessoas de forma profunda, que se importa com as coisas e faz, pensa e age por determinados propósitos, enquanto o turista é aquele indivíduo “superficial”, que vive no modo “automático”, sem reflexão ou senso crítico.

Queremos esclarecer, desde já, que ser “turista” ou ser “peregrino” não é ruim, e também não é uma escolha duradoura; uma pessoa pode ter atos “de turista” e “atos de peregrino”, sendo muito difícil ser só um dos dois em todas as situações. São atos de momento, sendo que atualmente os atos “de peregrino” são atos mais raros, pois a sociedade atual está mais voltada à superficialidade.

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turista em museu de arte.

Podemos, por exemplo, observar esse tipo de distinção de ação no aprofundamento e na intenção ao apreciar a arte, como em museus, onde muitas pessoas apenas fotografam as obras de forma superficial para compartilhar as fotos na internet,  sem compreendê-las, tampouco tentar entender o que o autor delas quis expressar.

 

Outro lugar em que podemos observar o comportamento típico do “turista” é em shows de música, onde a maior parte das pessoas está mais preocupada em filmar a apresentação e compartilhá-la em redes sociais do que curtir a experiência, e acabam assistindo ao espetáculo apenas pela tela do celular. Reparamos que as redes sociais vêm se tornando lugares para turistas, as fotos só servem para ganhar mais “curtidas”, as pessoas para ganharem “seguidores” o tempo todo; como se a experiência em si não valesse por si própria.

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turista em apresentação musical.

A ideologia dominante ajuda neste processo de superficialidade, já que, sem perceber, estamos imersos em uma cultura que forma nosso pensamento e nosso modo de agir, com hegemônica para o consumo, o que acaba nos tornando suscetíveis a um consumismo desenfreado, muitas vezes sem sequer “parar” e ver o que estamos fazendo, levando-nos muitas vezes a um modo de vida “automatizado”.

 

O mundo em que vivemos afeta nossa maneira de ser e viver. Muitas vezes não percebemos, mas as escolhas que fazemos são fortemente influenciadas pelo contexto social e cultural. É claro que nenhum dos diferentes modos de enxergar a realidade está errado em si; porém, concluímos que temos de conhecer variados pontos de vista, incluindo o do peregrino e o do turista.

Exemplos

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O Sal da Terra

Podemos ver experiências peregrinas no documentário O Sal da Terra (Brasil, 2015, dir.: Wim Wenders / Juliano Ribeiro Salgado), no qual vemos o fotógrafo Sebastião Salgado convivendo com várias culturas diferentes ao redor do mundo de forma profunda e duradoura, assim obtendo várias experiências tipicamente peregrinas e conhecendo outros modos de viver e de compreender a realidade.

 

Também podemos observar diferentes modos de compreender a realidade do mundo e das pessoas no filme Era O Hotel Cambridge, que fala sobre a população sem-teto e refugiados recém-chegados ao Brasil, também sem moradia. Todos ocupam um hotel abandonado e o tornam o lar deles; porém, os moradores das redondezas e o governo não gostam de sua presença, dando um prazo para que saiam.

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Era O Hotel Cambridge

Então, os moradores se organizam para mostrar ao mundo que eles são pessoas e aquele é o seu lar. Os moradores do prédio se expressam e protestam através da arte, da voz, mas as pessoas que realmente têm moradia e dinheiro só enxergam o que elas acham que está “estragando” o lugar. Esse filme mostra nitidamente o ponto de vista de cada grupo e como estes podem ser diferentes.

 

Outra obra que podemos relacionar com a compreensão da realidade dentro de ações peregrinas e turísticas é o clássico livro escrito por Aldous Huxley em 1931, Admirável Mundo Novo. A obra se passa no século VII depois de Ford (DF), quando não existe mais a concepção da vida como conhecemos hoje, tudo é feito por meio de genética e fecundação externa; a sociedade é dividida em castas que são definidas a partir do momento em que o feto se forma, sem discussões, sem revoltas, pois não havia mais famílias.

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Admirável Mundo Novo

As diferentes castas, denominadas Alfa, Beta, Delta, Gama e Ipsilon, foram criadas para que os seus membros nunca saíssem delas, sendo punidos caso tentassem. Mas exilados da sociedade existem os Selvagens, os seres humanos que, vistos pelo nosso ponto de vista, são mais comuns: possuem família, e sua reprodução é natural; porém, do ponto de vista dos reproduzidos (as castas), que compunham a maior parte da sociedade, eles eram considerados Selvagens.

 

O governo da distopia distribui uma droga, a SOMA, que tinha o objetivo de acabar com a infelicidade, sem depressão nem tristeza. Bernard, um dos personagens principais, viaja para uma aldeia de Selvagens e conhece uma família; retorna à “civilização” com dois Selvagens: uma mulher e o filho. Com o passar do tempo, Bernard começa a usar este como uma atração, um objeto para ganhar status, respeito e poder.

A importância desta obra para o tema do turista e do peregrino é que, quando alguns Alfas se deparam com Selvagens, aqueles encaram o modo como estes compreendem a realidade como sendo absurdo, tanto que aprisionam um Selvagem como exemplo. Ao compararmos com nossa realidade, não chega a ser tão diferente: muitas vezes, ao olharmos para outra cultura e modo de compreensão da realidade, nossa sociedade a estranha e a afasta, fechando-se para ela. Sendo que, muitas vezes, não percebemos que estamos envoltos na nossa própria bolha de compreensão e nos fechamos de entender outras pessoas diferentes. Além disso, não é estranho atualmente pegarmos alguma cultura, religião ou crença e nos aproveitarmos disso, normalmente por dinheiro, ou pela curiosidade em serem diferentes da nossa “bolha”, diferentes do que é nos é imposto, diferentes do “normal”.

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Erros do passado na nossa atualidade

Nossa sociedade não pode ceder ao autoritarismo e à intolerância, repetindo assim erros do passado.

por José Maria Velasquez

A exposição Queermuseum, promovida pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, que promovia obras de reflexão sobre a diversidade de gênero e orientação sexual, foi cancelada por causa da repercussão negativa espalhada por grupos conservadores, os quais acusaram o evento de promover zoofilia, pedofilia e denegrir símbolos religiosos.

Além das críticas e da alegada perda de clientes do banco pela má repercussão, houve ameaças de morte a 3 funcionários.

Mas o próprio MBL (Movimento Brasil Livre), que criticou a exposição, não foi vê-la. Para um dos seus fundadores, Renan Santos, “não é necessário ir à exposição para saber que a exposição desrespeita imagens religiosas”.

santander-crc-777x437Dos fatos mencionados, há 2 observações: a primeira, do filósofo Imannuel Kant, com a teoria do idealismo transcendental, que explica que o conhecimento da realidade se daria pela experiência e pela razão. Assim, não ter visto a exposição e aceitar que ela trata de pedofilia, zoofilia, ou intolerância, não condiz com a realidade.

E intimidação, ameaça, vandalismo a pessoas ou instituições que tenham convicções divergentes, como sofreram os funcionários do Santander ou pessoas de vertentes político-ideológicas diferentes, são típicas de regimes autoritários, como nazi-fascismo e o stalinismo, e não em sociedades pautadas pela democracia, direitos humanos e pluralidade de pensamento.

Em virtude dos fatos apresentados, a sociedade vive um perigoso dilema: voltar ao lado arcaico e autoritário da intolerância, ou seguir em frente ao lado do respeito pelo pensamento crítico e tolerante. O escritor George Orwell, em sua obra “1984”, já descrevia um Estado autoritário, com censura e morte ao pensamento divergente. E a história da humanidade também apresentou esse cenário, como no nazi-fascismo e no stalinismo. Assim, é necessário resistir diante do ataque, ao promover mais exposições com temas diversificados, denunciar o preconceito e promover a conscientização, para evitar outra tragédia de violência, censura e intolerância, e assim, não repetir os erros do passado na nossa atualidade.

Psicanálise cinematográfica: a narrativa e o espectador

O filme “Precisamos falar sobre Kevin” utiliza a arte do cinema para iluminar áreas obscuras da psicologia humana.

por Lis S. Crivellari

we-need-to-talk-about-kevinDirigido por Lynne Ramsay, cineasta especializada em suspenses, Precisamos Falar Sobre Kevin (2011) é um filme anglo-americano baseado no livro homônimo escrito por Lionel Shriver. A produção garantiu à atriz Tilda Swinton o Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Atriz, em 2011.

Trata-se de um suspense psicológico que explora a relação tendenciosa entre uma mãe e seu filho. Eva (Tilda Swinton), mãe de Kevin (Ezra Miller), luta contra a personalidade malévola do filho mais velho, em uma tentativa de aproximar-se e criar uma relação saudável com o primogênito, que demonstra-se hostil quanto ao relacionamento com a mãe.

Em uma narrativa inconstante, a produção do filme trabalha com a dualidade, mesclando cenas da vida que levava com sua família e como esta fora exterminada impetuosamente, até a atual realidade turbulenta de Eva.

Precisamos Falar Sobre Kevin explora o instinto maternal de Eva combinado com a auto-culpabilidade que cria após descobrir as consequências que o comportamento violento do filho gera.

Cada elemento presente na construção do filme visa transparecer ao telespectador diversas metáforas e paradoxos, inconscientemente relacionando e sintetizando elementos-chave do filme.

Um aspecto crucial no entendimento da narrativa é a semelhança estabelecida entre de Eva e Kevin. Semelhanças físicas e mesmo comportamentais (como, quando criança, Kevin copia a fala de sua mãe) proporcionam a ideia de que Eva é responsável pela educação e formação de Kevin, assim como de sua nascença. Este detalhe é assimilado à culpa da mãe pelas ações do filho, criando a atmosfera perturbada que é a atual vida de Eva.

O clima de suspense que proporciona a produção de Precisamos Falar Sobre Kevin é devorador. O ser humano é biologicamente impulsionado a criar justificativas e conclusões a situações desmembradas, e o mistério por trás do filme faz crescer em nós uma dúvida dilacerante que, quando esclarecida, provoca um choque de conforto e assombro junto ao alívio, clássicos dos gêneros de suspense e terror.

“As pessoas que buscam sensações desfrutam da curiosidade mórbida dos filmes de horror. Comparado a pessoas com baixa procura de sensação, elas têm um maior nível de excitação. Na psicologia, a excitação é um sentimento geral de alerta ou de consciência.” Natasha Romanzoti, 2010

Os efeitos visuais cinematográficos também valem ser ressaltados. A cor vermelha, aparente e emergente ao longo da narrativa, demonstra, além do sangue, o crescente caos na vida de Eva causado pelo ódio de Kevin em relação à sua mãe. A cena da Tomatina no início do filme passa-se antes de Kevin ser concebido, como uma antecipação inconsciente, tanto para o personagem quanto para o telespectador, do que estaria lhe aguardando no futuro. É também perceptível a presença do vermelho na atmosfera de Eva após os eventos envolvendo Kevin e sua completa imersão involuntária no drama do ocorrido.

Além de intensificar e acentuar a narrativa do filme, a cor proporciona também ao telespectador certas emoções e ajuda a moldar a estrutura cinematográfica da obra na mente do indivíduo.

“Com a chegada da cor no cinema, o envolvimento emocional que a iluminação e a textura exerciam na época do cinema preto e branco, tornou-se ainda maior. Não significa que uma cor terá o mesmo significado em todos os filmes, assim como ela não possui na vida real. Da maneira como os cineastas trabalham, é possível atrelar diferentes significados às cores com base na vivência dos espectadores e nos objetivos do filme.” Luíza de Castro, 2015

A psicologia por trás dos filmes torna as produções cinematográficas praticamente interativas. São premeditadas e moldadas, de modo que o indivíduo tenha o total entendimento da narração, e até mesmo sinta conexão emocional e mental com o filme.  A arte do cinema não se baseia somente no visual e no enredo do filme, e sim nos elementos ocultos, como a exploração do subconsciente do espectador, proporcionando a experiência fantástica que distruibuem as produções cinematográficas.

A sexualidade juvenil

O conto “O primeiro beijo”, de Clarice Lispector, faz o leitor mergulhar com vivacidade na experiência da descoberta sexual.

por Lis S. Crivellari

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“O Primeiro Beijo”, obra de Clarice Lispector, explora o amor e a sexualidade juvenil. Um casal de adolescentes conversa, e a menina pergunta ao menino se seu primeiro beijo fora com outra. Daí se inicia a descrição de seu primeiro beijo e o desenvolvimento da narrativa.

Clarice é uma grande figura da literatura brasileira, e suas histórias já são consideradas clássicos. Nascida na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920, chega ao Brasil em março de 1922. Passou a infância na cidade do Recife e, em 1937, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito. Inicia sua carreira literária em 1943, com o romance “Perto do Coração Selvagem”, que fora bem recebido pelo público, recebendo o Prêmio Graça Aranha.

O menino, na narrativa, sentia sede imensa enquanto estava em um ônibus de excursão, e se satisfez com a água da fonte de uma estátua feminina na parada que fizeram. Essa sede pode ser comparada à libido, desenvolvida na adolescência, e insaciável. A água que jorra da boca da estátua devolve a vida ao garoto, que se sente aliviado ao satisfazer sua necessidade natural, e novamente pode-se atrelar isso ao desejo sexual. A vida lhe foi dada pela “mulher”, portanto, despertou e amadureceu.

O desejo sexual é um dos mais recentes a se desenvolver. A libido é considerada por muitos de fonte maternal, e o sexo parte do ciclo natural, seja em prol do conforto, prazer ou da própria reprodução da espécie. Sigmund Freud, psicólogo influente do início do século XX, propõe que a sexualidade é desenvolvida em três fases pré-genitais:

“(…) fase oral, na qual a atividade sexual está ligada diretamente à nutrição. Ao nascer, a criança reconhece a boca como o órgão mais sensorial, é através dela que o bebê começará a reconhecer o mundo. A fase anal é a etapa de maturação do controle muscular da criança, aqui ela começa a desenvolver sua organização motora. A zona de erotização é o ânus. Sua ligação afetiva se dá com o produto, com o valor simbólico das fezes, promovendo mecanismos psicológicos ligados à projeção e ao controle. A fase fálica é quando se dá a descoberta e preocupação na diferença entre meninos e meninas. Aqui a zona de erotização são os genitais. Esta fase promoverá as organizações psicológicas de masculino e feminino e organizam-se, também, os modelos relacionais entre homens e mulheres.” (fonte)

Clarice, no conto, mostra a vitalidade do menino, a inocência infantil e a mudança que se mostra na experiência. Retrata a transição de garoto para homem, o amadurecimento que se tem a partir do contato sexual, e mesmo assim sua inocência, quando seu despertar é com a figura de uma estátua, algo material que remetia à figura feminina. Essa dualidade é explorada no conto:

“Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.” (trecho de “O Primeiro Beijo”, Clarice Lispector).

Escritora da década de 1940, Lispector dá vida ao texto, analisando e criticando a questão da sexualidade com uma narrativa interessante, com a visão atualizada para nosso século. Relaciona a ideia principal do texto e sua própria narrativa de um modo metafórico, explorando a fragilidade e importância do assunto.

A sexualidade tem sua banalização e repressão social, causando na formação sexual o sentimento de culpabilidade e transformando o natural em algo impuro. Em “O Primeiro Beijo”, Clarice desconstrói a vulgaridade atribuída ao sexo, e analisa o primeiro beijo, a “tensão” e o orgulho que sente o menino com a própria vida, poetizando e humanizando suas palavras para proporcionar ao leitor essa mesma visão.

Como a nossa sociedade está se matando

A depressão e o suicídio entre nossos jovens estão tomando características epidêmicas. É preciso pôr um ponto final nisso.

por Eduardo Costa

8 pessoas por dia. Essa foi a taxa de suicídio de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil, em 2014. A cada 100 mil jovens de 15 a 29 anos, 6 se suicidam. 26. Esse é o número de pessoas que cometem suicídio todo dia no Brasil. 95% das pessoas que se suicidam possuem algum diagnóstico de doença psiquiátrica. Jovens LGBTI têm quatro vezes mais chances de cometer suicídio. Tem algo de errado com a nossa sociedade. E nós temos a obrigação de mudar isso. É nosso dever como cidadãos, como seres humanos. Essas taxas alarmantes vêm crescendo cada vez mais ao longo do tempo, indicando que algo está fazendo com que algumas pessoas não aguentem mais.

Basta ir à sessão de comentários de qualquer portal jornalístico para ver. Centenas e centenas de comentários ofendendo tudo e todos, e quando há discordância entre as pessoas, logo vem alguém falar: “se mate”. Até mesmo em um artigo sobre a crescente taxa de suicídio há comentários assim. Isso mostra que erramos em algum ponto na humanidade. A pressão para tirar boas notas nos vestibulares, para poder entrar em uma boa faculdade, para poder ter um bom emprego, para poder ganhar dinheiro. Tudo na nossa sociedade gira em torno do dinheiro. As pressões vêm de todos os lados, dos pais, dos professores, dos colegas, até mesmo dos amigos próximos. Se seu amigo não dorme há três dias para estudar para uma prova, mas ele vai bem nessa prova, você considera esse amigo uma pessoa bem sucedida. Mas ele não é. Ele se privou de uma necessidade básica de todo ser vivo para poder ter dinheiro. Fazer com que isso seja glamourizado ou exaltado só piora a nossa situação.

A constante necessidade de superar os outros, a competitividade excessiva faz com que nossos jovens percam a vontade de se divertir, faz com que o jovem não aproveite todos os aspectos da vida. Com o crescimento das redes sociais, cresce também a necessidade de se mostrar algo que não é, de criar uma máscara que você se apresenta como sendo feliz e sem problemas, sendo que na vida real não é assim. Isso só faz com que o jovem, cada vez mais, ao não ser considerado “bem sucedido”, se sinta mal e inútil. A nossa sociedade faz isso conosco. Nos força goela abaixo o esforço excessivo e cada vez mais exorbitante, e isso faz com que os jovens desenvolvam distúrbios psiquiátricos, como ansiedade, depressão e transtorno bipolar. O bullying também causa esses distúrbios, muitas vezes os intensificando, levando o jovem até um ponto limite, em que ele não aguenta mais as pressões. O Japão, considerado um exemplo de esforço dos alunos, tem uma onda de suicídios na volta às aulas, demonstrando que há algo de errado nesse “modelo” de ensino.

A-depressão-nos-jovens-adolescentesA sociedade é especialmente cruel com as mulheres, por viverem em um mundo onde elas têm que estudar, ser bem-sucedidas, ter filhos e cuidar da casa. Abusos sexuais e psicológicos são grande responsáveis pela depressão nas mulheres, ainda mais aliados à exposição de fotos íntimas, o que faz com que a sociedade rejeite essas mulheres, as deixando marginalizadas, o que pode levá-las ao suicídio também.

Nós precisamos reverter esse quadro abusivo com nossos jovens, ou num futuro muito próximo não haverá trabalhadores com sua saúde mental perfeita. Segundo a OMS, a depressão será a doença mais comum do mundo nos próximos 20 anos. A depressão é a maior causa de incapacidade no mercado de trabalho do Brasil. Precisamos mudar a nossa mentalidade, e ensinar para os jovens que passar no vestibular não é a coisa mais importante do mundo, que eles podem ser felizes sem fazer uma faculdade. Precisamos salvar nossos jovens.

Sistema educacional e suicídio

A invisibilidade dos sofrimentos dos jovens é algo que a sociedade não deve mais tolerar.

por Christian Palmério

A série da Netflix “13 Reasons Why” apresenta como protagonista Hannah Baker, que se suicidou. Ao longo da série, as razões que motivaram essa ação são explicadas, dentre elas o bullying, assédio sexual, depressão e violência física. Fora da ficção, o suicídio continua sendo um problema nas sociedades contemporâneas, necessitando de políticas públicas para tentar reduzir esses atos.

O filósofo Jean Paul Sartre afirmou que a violência, independente de como ela se manifesta, é sempre uma derrota. Uma pesquisa realizada pela USP de Ribeirão Preto estima que 20% dos estudantes escolares já praticaram algum tipo de bullying contra os colegas. O bullying escolar, de acordo com a FIOCRUZ, é um dos grandes motivos de suicídio entre jovens.

Mesmo com campanhas e discussões sobre o assunto no âmbito escolar, o número de casos, tanto de bullying quanto de suicídio, está subindo constantemente. Entretanto, muitos problemas dificultam a solução desse impasse. O silenciamento ainda predominante da mídia, da escola e dos familiares em relação ao suicídio e à depressão cria um ambiente desfavorável para que o adolescente se sinta à vontade para falar de seus sentimentos, fazendo com que seja difícil a percepção de comportamentos suicidas / depressivos. Ademais, a pressão familiar em cima dos jovens em relação ao vestibular acaba por contribuir para que o jovem entre em depressão e não sinta firmeza sobre o seu futuro, resultando em um deslocamento dentro da família.

bullyng-620x350Portanto, medidas são necessárias para resolver essa situação. O MEC deverá providenciar palestras para escolas sobre os temas do bullying, da depressão e do suicídio, utilizando uma linguagem informal para aproximar os jovens. Ademais, devem ser criadas atividades semestrais anônimas, nas quais o jovem poderá relatar os seus sentimentos, criando uma maior facilidade em se abrir para as outras pessoas. O MINC deverá priorizar verbas para produções artísticas que tematizem o suicídio e outros problemas dos jovens, para que haja uma maior representatividade midiática sobre os problemas da juventude. Isso ajudará tanto os pais, no entendimento dos problemas dos filhos, e os próprios adolescentes, que sentindo-se melhor representados, não sofrerão mais em silêncio.

Autonomia dos universitários

Os pais e as universidades devem encarar o ensino superior de maneira bem diferente do ensino médio.

por Melissa Marques

Cada vez mais, podemos perceber a interferência dos pais na vida acadêmica dos alunos, principalmente daqueles de universidades particulares. Por conta disso, o desempenho estudantil dos universitários está mudando, criando estudantes cada vez mais dependentes.

Em universidades privadas como a Belas Artes e o Mackenzie, começou a aumentar o número de pais que vão até a coordenação reclamar das notas dos filhos, fazendo com que as instituições comecem a promover reuniões de pais e professores, iguais as de colégios.

O coordenador do curso de publicidade da Belas Artes observa que alunos que pagam a própria mensalidade tendem a ser mais autônomos do que os que dependem dos pais. Esse tipo de comportamento contempla o que muitos chamam de “geração mimada”.

A falta de autonomia estudantil também pode ser uma consequência do ingresso antecipado de um ou dois anos dessa geração nas faculdades. Segundo a educadora Sílvia Colello, essa diferença, por menor que seja, é o que define essa falta de autonomia. O estudante entra na universidade assim que sai do colégio, tem dificuldade de sair da vida colegial e entrar na universitária.

1377268_537746026305558_1325943867_nPara melhorar essa situação, os pais, por mais preocupados que sejam, devem dar um espaço para o universitário começar a se virar sozinho, e as instituições de ensino não devem aderir a esse controle que os pais querem ter sobre as notas dos filhos. Uma educação liberal é o que permite o aluno ter suas próprias ideias, fazendo com que ele vire um profissional mais competente e independente.